sábado, 29 de março de 2008

DENGUE FORA DE CONTROLE: VERGONHA MUNICIPAL, ESTADUAL E FEDERAL

Muito nos entristece a atual situação do Rio de Janeiro. Um estado sitiado por uma peste assoladora e aterrorizante epidemia de dengue, com muitos casos evoluindo à dengue hemorrágica, a mais grave manifestação desta praga.

Espanta-nos constatar que, na cidade onde houve uma verdadeira revolução no que concerne à difusão do conceito de saúde pública como elemento de primeira grandeza na prática da medicina - e por consequência de outras profissões da área da saúde - ocorra, em pleno ano de 2008, em pleno século XXI, concomitantemente à discusão no Congresso Nacional a respeito da liberação de pesquisas com células-tronco, uma epidemia com índices assustadores de casos e de óbitos.

Esta revolução foi conduzida nas primeiras décadas do século XX por um dos maiores e mais notáveis brasileiros de que se tem notícia. Um homem que enfrentou a tudo e a todos - militares e população enfurecida - no episódio conhecido como "Revolta da Vacina" em defesa de suas convicções. Enfrentou-os e venceu. Muitas moléstias tropicais foram erradicadas por este sanitarista, entre elas a peste bubônica, a varíola e a febre amarela (que nos últimos meses retornou, inacreditavelmente, no Centro-Oeste). Este homem chama-se Oswaldo Cruz.

ENTENDENDO A DENGUE (Sinais e sintomas, diferenciações e variações, afecções a outros sistemas corpóreos)

O que é?

Denomina-se dengue a enfermidade causada por um arbovírus da família Flaviviridae, gênero Flavivirus, que inclui quatro tipos imunológicos: 1, 2, 3 e 4. A dengue tem, como hospedeiro vertebrado, o homem e os primatas, mas somente o primeiro apresenta manifestação clínica da infecção e período de viremia de aproximadamente sete dias. Nos demais primatas, a viremia é baixa e de curta duração. A dengue é transmitida através da picada de uma fêmea contaminada do Aedes aegypti, pois o macho se alimenta apenas de seiva de plantas. Um único mosquito desses em toda a sua vida (45 dias em média) pode contaminar até 300 pessoas.

A seguir, reproduzo trecho de um artigo científico, o qual está devidamente referenciado ao fim deste texto:

"Sinais e sintomas do dengue. Forma assintomática: nesta forma da doença os sintomas não são perceptíveis ao paciente. Estima-se que em uma epidemia de dengue ocorra um caso assintomático para cada cinco casos sintomáticos.

Forma indiferenciada: assemelha-se à síndrome gripal. O paciente apresenta sintomatologia leve, confundindo seu quadro clínico com gripe e muitas vezes não procura atendimento médico. Quando o faz, o diagnóstico clínico inicial é de gripe.

Formas atípicas: o dengue pode manifestar-se com formas clínicas atípicas, simulando outras doenças. Na hepatite pelo vírus do dengue ocorre elevação importante das transaminases e presença de icterícia. A doença pode apresentar-se com febre, dor abdominal e vômitos, quadro indistinguível das outras hepatites virais agudas.

Podem ocorrer formas raras com comprometimento do sistema nervoso central manifestando-se com encefalites (Síndrome de Reye) ou polineuropatias (Síndrome de Guillain-Barré). Essas formas podem surgir no decorrer da doença ou na fase de convalescença.

Dengue clássico: o quadro inicia-se subitamente com febre alta, acompanhada de cefaléia intensa, que pode ser retro-orbital e/ou holocraniana. Acompanham o quadro mialgia intensa e generalizada e, algumas vezes, artralgias. O exantema do dengue surge por volta do terceiro ou quarto dia da doença, sendo mais comum nas extremidades, podendo apresentar-se em todo o corpo. Mostra-se característico da doença o prurido intenso na fase de remissão do exantema. A dor abdominal no hipocôndrio direito, raramente acompanhada de hepatomegalia, ocorre em pequena parcela dos casos. Náuseas e vômitos também podem surgir no início do quadro e algumas vezes o paciente apresenta diarréia. Linfoadenomegalia e esplenomegalia são raras. Na fase de convalescença o paciente pode apresentar astenia e depressão por um período de um a dois meses. Há relatos também de distúrbios psiquiátricos.

No dengue clássico segundo os tratados e manuais podem ocorrer fenômenos hemorrágicos que geralmente são leves, do tipo epistaxe e gengivorragia, mas que podem apresentar-se tão intensos a ponto de levar ao choque hipovolêmico. Segundo esse critério, em uso atualmente, essa não seria a febre hemorrágica do dengue. Em nossa opinião, do ponto de vista terapêutico essa apresentação da doença deve ter uma abordagem voltada para o controle da hemorragia, reposição volêmica com cristalóides e/ou sangue e hemoderivados, tal como ocorre com outras doenças hemorrágicas, justificando-se sua classificação à parte.

Febre hemorrágica do dengue (FHD)/Síndrome do choque do dengue (SCD): o quadro inicia-se de forma semelhante ao dengue clássico, com febre (ocasionalmente 40 a 41ºC), mantendo-se elevada por período de 2 a 7 dias, quando então apresenta queda súbita. Tem sido definida nas situações em que há febre com ou sem manifestações hemorrágicas associadas a trombocitopenia.

Terapêutica: A princípio, todos os casos classificados como de FHD e sobretudo de SCD, ou de acordo com a classificação proposta por nós, dengue com hemorragias ou com sepse, deveriam ser conduzidos em unidade de terapia intensiva (CTI) ou, ao menos, em unidade intermediária."

HISTÓRICO DA DOENÇA NO BRASIL
No Brasil, existem registros de epidemias de dengue no Estado de São Paulo, que ocorreram nos anos de 1851/1853 e 1916 e no Rio de Janeiro, em 1923. Entre essa data e os anos 80, a doença foi praticamente eliminada do país, em virtude do combate ao vetor Aedes aegypti, durante campanha de erradicação da febre amarela. Observou-se a reinfestação desse vetor em 1967, provavelmente originada a partir dos países vizinhos, que não obtiveram êxito em sua erradicação. Na década dos anos 80, foram registrados novos casos de dengue: em 1981 - 1982 em Boa Vista (RR); em 1986 - 1987 no Rio de Janeiro (RJ); em 1986, em Alagoas e Ceará; em 1987, em Pernambuco, Bahia, Minas Gerais e São Paulo; em 1990, no Mato Grosso do Sul, São Paulo e Rio de Janeiro; em 1991, em Tocantins e, em 1992, no Estado de Mato Grosso.

No período de 1986 a outubro de 1999, foram registrados, no Brasil, 1.104.996 casos de dengue em dezenove dos vinte e sete Estados. Observou-se flutuação no número de casos notificados entre 1986 e 1993, seguido de aumento acentuado no número de notificações no período de 1994 a 1998, com queda em 1999.

A média anual, após 1986, foi de 78.928 casos/ano, ficando acima desse valor em 1987, com 82.446 casos; em 1990, com 103.336; em 1995, com 81.608; em 1996, com 87.434; em 1997, com 135.671; em 1998, com 363.010 e 1999, com 104.658 casos.

Observou-se a falta de uniformidade quanto ao modo de notificação da distribuição do número de casos, por Estado. Alguns não têm dados disponíveis, enquanto outros, como Mato Grosso, apresenta registros fragmentados, não incluindo todas as regiões. Quanto ao Estado de São Paulo, verificou-se que foram notificados os casos confirmados por exames de laboratório e, dentre os municípios, não constava o da capital.

No Estado de São Paulo, a dengue foi incluída no rol das doenças de notificação compulsória, em 1986. Em 1987, foram detectados dois focos da doença na região de Araçatuba, os quais foram controlados. Na região de Ribeirão Preto, a epidemia alcançou o pico em 1991, estendendo-se pelas regiões de São José do Rio Preto, Araçatuba e Bauru, confirmando as previsões de risco crescente de ocorrência da arbovirose.

Em resumo, agrupando por regiões, a Sudeste foi a que registrou o maior número de casos, sendo também a de maior população e disponibilidades de recursos para diagnóstico e notificação. Seguem-se em relação à incidência de dengue as regiões Nordeste, Centro-Oeste, Sul e Norte.

Em 2002, novamente o Rio de Janeiro foi castigado por uma epidemia de dengue, agora com a entrada do vírus tipo 3. Mais de 400 mil pessoas contraíram a doença na cidade e 91 morreram em todo o Estado. Foi o ano com mais casos de dengue na história do país, concentrados no Rio de Janeiro, até a epidemia deste ano.



SINTOMAS

O período de incubação é de três a quinze dias após a picada. Dissemina-se pelo sangue (viremia). Os sintomas iniciais são inespecíficos como febre alta (normalmente entre 38° e 40º C) de ínicio abrupto, mal-estar, pouco apetite, dores de cabeça, musculares e nos olhos. No caso da hemorrágica, após a frebre baixar pode provocar sangramentos nas gengivas e nariz, hemorragias internas e coagulação intravascular disseminada, com danos e enfartes em vários orgãos, que são potencialmente mortais. Ocorre freqüentemente também hepatite e por vezes choque mortal devido às hemorragias abundantes para cavidades internas do corpo. Há ainda exantemas cutâneos típicos (manchas vermelhas na pele), e dores agudas das costas (origem do nome, doença “quebra-ossos”).

A síndrome de choque hemorrágico da dengue ocorre quando pessoas imunes a um sorotipo devido a infecção passada já resolvida viajam e são infectadas por outro sorotipo. Os anticorpos produzidos não são especificos suficientemente para neutralizar o novo sorotipo, mas ligam-se aos virions formando complexos que causam danos endoteliais, produzindo hemorragias mais perigosas que as da infecção inicial. A febre é o principal sintoma.

Ao ser observado o primeiro sintoma, deve-se buscar orientação médica no posto de saúde mais próximo. As pessoas que já contraíram a forma clássica da doença devem procurar, imediatamente, atendimento médico em caso de reaparecimento dos sintomas agravados com os sinais de alerta, pois correm o risco de estar com dengue hemorrágica, que é o tipo mais grave. Todo tratamento só deve ser feito sob orientação médica.


PREVENÇÃO E TRATAMENTO

Uma boa prevenção é feita quando direcionada à larva do mosquito. No mais é tudo aquilo que já estamos sabendo de cor e salteado: evitar acúmulo de água parada em objetos que facilitem a desova dos mosquitos, como pneus, vasos de plantas, baldes e latas, garrafas e quaisquer outros tipos de recipientes. O diagnóstico é feito através de isolamento viral (IVIS), inoculando soro sanguíneo em culturas celulares, ou por meio de sorologia, sendo este o procedimento utilizado para saber se o paciente é portador do vírus da dengue.

Quanto ao tratamento, em caso de confirmação de dengue, o recomendado é que o paciente fique em repouso total e beba bastante líquidos, INCLUSIVE SORO CASEIRO. É de suma importância evitar a automedicação, pois os remédios mais comumente usados pelas pessoas são os ácidos acetilsalicílicos (AAS), como a Aspirina, além de outros anti-inflamatórios não esteróides (AINEs), geralmente utilizados em situações em que haja febre. Estes fármacos são extremamente contra-indicados por facilitarem processos hemorrágicos.

DENGUE HEMORRÁGICA

Os sintomas da dengue hemorrágica são os mesmos da dengue comum. A diferença ocorre quando acaba a febre e começam a surgir os sinais de alerta:· Dores abdominais fortes e contínuas. Vômitos persistentes; Pele pálida, fria e úmida; Sangramento pelo nariz, boca e gengivas; Manchas vermelhas na pele; Sonolência, agitação e confusão mental; Sede excessiva e boca seca; Pulso rápido e fraco; Dificuldade respiratória; Perda de consciência.

Na dengue hemorrágica o quadro clínico se agrava rapidamente, apresentando sinais de insuficiência circulatória e choque, podendo levar a pessoa à morte em até 24 horas. De acordo com estatísticas do Ministério da Saúde, cerca de 5% das pessoas com dengue hemorrágica morrem. O objetivo do Ministério é que esse número seja reduzido a menos de 1%.

UMA PRAGA QUE SE DISSEMINA COM MUITA RAPIDEZ

Uma simples tampinha de refrigerante que se joga no chão é um criadouro de larvas em potencial. Sugiro que sejamos chatos, caretas e carolas quanto a isso, pois a situação é feia. Muito feia. Vivemos simplesmente a maior epidemia de dengue de todos os tempos, superando a de 2002. A situação é grave, ainda que o napoleônico prefeito do Rio de Janeiro tente convencer-nos do contrário.

As autoridades constituídas levaram um tempo trocando acusações entre si, nas três esferas: municipal (Rio de Janeiro), estadual e federal. Nesse meio tempo, as pessoas pobres, desamparadas e a mercê de um caótico sistema público de saúde foram dando entrada nos hospitais que ainda tinham vagas. Outras, com menos sorte, acabaram por falecer diante da troca de acusações dos que estão a salvo dos focos de transmissão, numa sala com ar condicionado e usando ternos bem cortados.

Convém, contudo, lembrar que o povo, apesar de estar com toda razão ao reclamar, pois o serviço público de saúde É RUIM SIM, tem a sua parcela de culpa, ainda que diminuta. Durante esses quase 25 anos em que me entendo por gente, vi muitas campanhas de combate ao mosquito da dengue sendo veiculadas na grande mídia, bem como em paredes de unidades de saúde e hospitais. Então, por que razão estamos batendo um triste e lamentável recorde? Porquê toda essa situação de caos generalizado? Perguntas que demorarão, e MUITO, a serem respondidas. Por hora nos resta pôr areia em nossos pratinhos de plantas e pedir a Ajuda Divina. E se possível, VOTAR DECENTEMENTE EM OUTUBRO!!!
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IMPRENSA

COMENTÁRIO DE ARNALDO JABOR (TV GLOBO) EM 20 DE MARÇO DE 2008:


MATÉRIA DO RJTV (TV GLOBO) DE 20 DE MARÇO DE 2008:


MATÉRIA DO ESPAÇO PÚBLICO (TV BRASIL) DE 21 DE MARÇO DE 2008:


MATÉRIA DO JORNAL NACIONAL (TV GLOBO) DE 25 DE MARÇO DE 2008:


MATÉRIA DO PROGRAMA BALANÇO GERAL - PARTE 1(TV RECORD) DE 27 DE MARÇO DE 2008:


MATÉRIA DO PROGRAMA BALANÇO GERAL - PARTE 2(TV RECORD) DE 27 DE MARÇO DE 2008:



Cabral: parada de hospital não impede combate à dengue

Cesar Maia reconhece falhas na prevenção da dengue na cidade

Há mais mortes e casos de dengue que os notificados, diz ministro


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REFERÊNCIAS:

1. SERUFO, José Carlos et al . Dengue: a reappraisal. Rev. Soc. Bras. Med. Trop. , Uberaba, v. 33, n. 5, 2000 . Disponível em: . Acesso em: 29 Mar 2008. doi: 10.1590/S0037-86822000000500008


2. http://pt.wikipedia.org/wiki/Oswaldo_cruz (ACESSADO EM 29 DE MARÇO DE 2008)

3. http://pt.wikipedia.org/wiki/Revolta_da_Vacina (ACESSADO EM 29 DE MARÇO DE 2008)

4. http://pt.wikipedia.org/wiki/Dengue (ACESSADO EM 29 DE MARÇO DE 2008)

5. http://portal.saude.gov.br/portal/saude/visualizar_texto.cfm?idtxt=23620&janela=1 (ACESSADO EM 29 DE MARÇO DE 2008)

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